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         MARRAKECH

O primeiro grande choque cultural, o islamismo e o Ramadã

Publicado em: 01/02/2016

Quando fui: Setembro de 2009

 

Quanto tempo: 2 dias

O primeiro choque cultural tão grande em uma viagem a gente nunca esquece. Por mais diferenças que existam entre Brasil e Europa (e são muitas), ambos os lugares acabam sendo semelhantes se colocarmos na comparação a maioria dos países da África ou Ásia, por exemplo. Neste caso, me refiro ao Marrocos, primeiro país tão diferente culturalmente que visitei em relação a tudo aquilo que estamos acostumados a viver. Deserto, camelos, encantadores de cobra, mulheres com burca, religião islâmica, muçulmanos, proibição ao álcool, Ramadã, árabes e muitas outras coisas até certo ponto inimagináveis na nossa realidade eu pude presenciar nesse país localizado no noroeste da África. Marrakech, a cidade que mais atrai turistas no país, foi a porta de entrada para este "novo velho mundo".

 

Em setembro de 2009, fiquei sete dias por no Marrocos, sendo dois deles em Marrakech, viajando em nove amigos. Pela curiosidade de ser um destino diferente e por ser um país muito barato de se visitar, recomendo bastante a viagem. Naquela época, antes do embarque, tentei pesquisar boas informações pela internet ou com amigos que já tinham ido, e até fazer reservas de hotel, transporte para o deserto e coisas do tipo. Mas não foi fácil, o Marrocos ainda estava muito longe de ter esse tipo de facilidades. O jeito foi chegar lá e tentar na raça. É preciso de um pouco de paciência, mas sempre dá certo. Atualmente, isso melhorou bem por lá e dá até para resolver quase tudo com antecedência pela web.

Apesar da precariedade e da pobreza de grande parte da “cidade vermelha”, há um contraste social muito grande. Fora da Medina (o centro histórico fortificado), existem luxuosos hotéis, prédios modernos, moradores cheios da grana e uma infra-estrutura muito boa, com direito a McDonald’s, KFC e até a famosa balada Pachá. No entanto, a verdadeira cultura local e a essência da experiência de uma viagem como esta está na bagunça da praça central Djemaa el Fna e no labirinto de ruazinhas e casinhas marrons da Medina, com mesquitas e palácios interessantes.

A dica é se perder na mistura de sons, cheiros, cores e sabores e não se estressar. Alguns marroquinos fazem jus à fama de serem muitas vezes incômodos na maneira que abordam os turistas para oferecerem ou venderem todo tipo de coisa. Para as mulheres, vale redobrar a atenção, não usar roupas curtas e evitar andar sozinha. Ah, aquela história de que algum árabe pode oferecer trocentos mil camelos em troca de um casamento com uma estrangeira não é lenda! Eles levam isso a sério.

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A praça Djemaa el Fna é o grande ponto de referência na Medina

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Motos, carros, moradores e turistas se misturam na "bagunça" da Djemaa el Fna

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Ruazinhas estreitas e casas marrons forma um labirinto na Medina

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Área comum tipicamente marroquina no Riad Amallah

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Barraca vendendo especiarias na praça Djemaa el Fna

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A principal praça da Medina de Marrakech fica cheia de barracas de comida durante a noite

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Mesquita da Koutoubia é o lugar de reza mais famoso da cidade

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Palácio El Badi, em ruínas, é outro ponto turístico de Marrakech

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O Palais de la Bahia tem várias salas com decorações típicas

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Curtume (local de fabricação de couro) não estava com o tradicional colorido

             TRANSPORTE:

 

Saímos em um avião da Vueling de Barcelona (depois de perdermos nosso avião da Ryanair em Londres) e chegamos no Aeroporto Marrakech-Menara. Existem voos de várias cidades da Europa para o Marrocos, inclusive de companhias low-costs. Depois de desembarcamos, pegamos um ônibus até a Medina, por 30 dirhams marroquinos (3 euros). Tudo bem tranquilo: o aeroporto é bom e o busão também, não há a necessidade de gastar mais com um táxi neste trajeto. Para se locomover na cidade, é possível visitar a pé quase todos as principais atrações, principalmente no centro histórico. Usamos táxi apenas para ir à noite na parte nova da cidade e para conhecer um curtume.

              HOSPEDAGEM:

 

Sem nada reservado com antecedência, nossa saga em busca de algum hotel, pousada, hostel ou qualquer lugar pra ficar começou logo que chegamos à Medina. Ao pisar na praça Djemaa el Fna, nós turistas somos praticamente atacados pelos marroquinos, que oferecem de tudo, inclusive acomodação. A desconfiança era grande, mas não tínhamos muita alternativa.

 

O figura que nos atendeu falava um inglês bem mais ou menos (vale lembrar que a língua oficial do Marrocos é o árabe, mas quase todos falam francês devido à colonização) e nos fez caminhar uns 10 minutos pelas vielas até chegar ao destino: o Riad Amallah. O caminho até o local era sinistro, mas a parte interna da pousada era bem simpática, um típico riad marroquino, com tipo um jardim ou pátio no meio, um local de tranquilidade que contrasta com a loucura das ruas ao redor. Cansados e sob um calor absurdo, não tivemos paciência para procurar outro lugar, ficamos por ali mesmo. Então, era o momento de negociar o preço da estadia. E aí vai uma grande lição do Marrocos: pechinche sempre, e muito, para tudo. A diária, que inicialmente o cara queria cobrar 50 euros para cada pessoa, saiu por apenas 5 euros, em dois quartos divididos entre nós. É sério, 10% do valor inicial. Claro, e o cara que nos levou até a pousada ainda cobrou uns trocados pela indicação.

Mas caso você não queira arriscar e nem se estressar na chegada a Marrakech, atualmente é muito mais fácil reservar pela internet do que quando eu fui em 2009. Há uma oferta grande de riads, hotéis e hostels com preços bem acessíveis. Dá até pra esbanjar um pouco e ficar num lugar mais confortável pagando bem menos do que seria na Europa, por exemplo.

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              O QUE FAZER:

Os principais atrativos de Marrakech estão na Medina, a parte antiga da cidade, um centro histórico fortificado, cercado de muralhas. A praça Djemaa el Fna é o ponto central para tudo. Lá, você vê barracas vendendo diversos tipos de comidas, ervas, sementes, encantadores de cobra, macacos adestrados, videntes que leem mão, músicos e várias outras bizarrices. No meio de tudo isso, circulam turistas, mochileiros, mulheres locais com burca, senhores muçulmanos com suas vestimentas típicas, além de crianças correndo, carros, motos, bicicletas. Tudo isso dividindo o mesmo espaço. É uma bagunça só. Importante citar que para tirar foto com os animais é preciso pagar, e os caras são bem chatos se você tenta dar uma de esperto e tirar escondido. O começo da noite é quando a praça fica mais lotada, e vale a pena sentar em uma das dezenas de barraquinhas e experimentar alguma das variedades de comidas oferecidas.

 

Nas imediações da praça, em um labirinto de ruazinhas e casinhas marrons, estão os Souqs, os mercados, lojinhas que vendem de tudo, de especiarias a perfumes, roupas, utensílios para casa, etc... Se quiser comprar algo, mais uma vez, pechinche muito e cuidado com os golpes. Ah, e cuidado também para não ser atropelado pelas motos, que dividem o espaços das ruas estreitas com os pedestres.

Outra atração principal é a Mesquita da Koutoubia, templo onde milhares de muçulmanos rezam em grandes celebrações em cinco horários determinados por dia. Destaque para a alta torre (minarete) da construção, visível de diversos pontos da cidade. A entrada, no entanto, só é permitida para que é muçulmano. É possível visitar quase todos os lugares de interesse a pé e por conta própria, mas vale a pena contratar algum guia que fica nas ruas e pode te explicar melhor a história. Foi o que fizemos. Sempre, claro, pechinchando o preço, o roteiro e o tempo de duração, e tomando cuidado para não ser enrolado pelos larápios. Pontos como a Medersa Ben Youssef (antiga madrassa, uma escola muçulmana que hoje é museu, ao lado da Mesquita Ben Youssef) o Palácio El Badi (antigo palácio em ruínas), o Palais de la Bahia (bonito palácio decorado com azulejos e jardins), os Túmulos Saadianos (onde estão enterrados governantes e artistas) e o Museu de Artes Marrakech estão na rota da maioria dos guias. Os ingressos são pagos à parte, mas os preços são baixos, entre 10 e 20 dirhams (1 e 2 euros) cada. No caminho entre casinhas marrons, suntuosos palácios e muitas lojinhas de artesanato e tapetes completam o cenário. Fora da Medina, o Jardim de Majorelle e o Jardim de Menara também costumam atrair muitos turistas.

 

Um passeio interessante que fizemos foi a um curtume, local onde o couro é fabricado. Para se chegar lá, basta pegar um táxi e rodar uns 15 minutos para fora do centro. Você pode conhecer o processo desde a retirada da pele do animal até o material ser transformado em uma bolsa, em um trabalho todo feito artesanalmente. O mau cheiro do lugar é insuportável, e os visitantes recebem folhas de hortelã para colocar no nariz durante o percurso. Para clarear um pouco a imaginação de quem não se lembra, a novela global “O Clone” teve várias cenas gravadas em um curtume. Lembra daqueles vários círculos com líquidos coloridos? Pois é, essa é a imagem que marca o local, mas quando fomos o processo de fabricação ainda não estava nesta época e não vimos as tais cores.

 

E para finalizar, claro, um tour imperdível que quase todo mundo faz a partir de Marrakech é para o deserto do Saara, que geralmente inclui uma noite em acampamento berbere e passeio de camelo.

               O RAMADÃ:

 

Durante a visita ao Marrocos, talvez o que tenha ficado mais marcado, bem mais do que construções ou monumentos, foi a cultura desse povo. Principalmente, pela viagem ter acontecido na época do Ramadã, período de renovação da fé dos muçulmanos. Durante um mês, eles ficam em jejum de qualquer comida e bebida, do nascer até o pôr do sol, sem poderem colocar absolutamente nada na boca, nem mesmo água. Tudo conforme está escrito no Alcorão, seguindo a crença nas palavras de Alá e nos ensinamentos de Maomé.

 

É difícil imaginar o cidadão sob um calor de mais de 40ºC graus impedido de tomar um copo d'água. Pois é. Vi isso de perto. Das 4h30 da manhã às 7h05 da noite, no caso, jejum total. Quando o sino da mesquita tocava todos os dias exatamente às 19h05, os fiéis partiam desesperadamente para a sagrada refeição. Boa parte do comércio fechava até que todos pudessem se alimentar e depois rezar nos diversos templos islâmicos espalhados pela cidade.

              BEBER E COMER:

 

Não se vende bebida alcoólica em qualquer lugar, principalmente durante o Ramadã. Dentro da Medina, nunca. Porém, Marrakech é um destino mais turístico e é facilmente possível tomar cerveja, vinho e outros drinks em bares autorizados e hotéis, principalmente na parte nova da cidade. Não é difícil de achar os lugares. Nos grandes supermercados, existe uma seção separada onde nós turistas temos permissão para comprar álcool, o que não acontece com os muçulmanos durante o período sagrado.

 

A comida também merece um capítulo à parte por lá. Aos mais frescos, preparem-se para enjoar de tagine, um prato típico árabe de frango ou alguma carne misturada com legumes. O tempero marroquino, por sinal, sempre com muito cominho, é algo que não agrada a muitas pessoas. Eu gosto sempre de experimentar a aproveitar a culinária local, e existem vários restaurantes e bares na praça central, além das barracas de comida à noite. Mas, para quem não tem estômago bom, há a opção de lanchonetes fast-food por perto.

              IMPERDÍVEL:

 

- A confusão de sons, cheiros, cores e sabores da Praça Djemaa el Fna. Viva a experiência sem se estressar.

 

- Não quer fazer o Ramadã? É possível tomar bebidas alcóolicas facilmente em bares e hotéis fora da Medina.

 

- Pechinchar, pechinchar, pechinchar e pechinchar… Sempre e pra qualquer coisa no Marrocos. Pechinche e cuidado com os golpes!

QUER SABER MAIS SOBRE MARRAKECH ? ACESSE TAMBÉM:

 

- Site oficial da cidade

 

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Barraca vendendo especiarias na praça Djemaa el Fna